sexta-feira, agosto 26, 2005

ENSAIO SOBRE A SENSATEZ

Hoje depois do almoço fumei um cigarro como há tempos não fazia – cigarro esse regrado de melancolia.

Não sei ao certo o porque, nem tampouco acredito ter motivos para tal, mas com um tango argentino de trilha sonora ao fundo, minha cabeça foi longe, para outro lugar que não aqui e toda a correria que viver atualmente implica.

A mente parece correr, voar... Da mesma forma que a fumaça vai subindo, subindo até desaparecer, o mesmo parece acontecer com as idéias nesses dias de “solidão” (entre aspas mesmo, porque de forma alguma estou realmente só)...

É estranho pensar que algo há tanto tempo distante, ainda causa tamanho impacto quando reaparece.

Voltando aos motivos, se é que realmente existe algum motivo para se sentir melancólico, senão a própria vontade de ficar assim.
Por eliminação, chego a conclusão de que por trás de tudo isso eu me apeguei a solidão e de certa forma ela também se apegou a mim.

O que diante dessa atual “infantilização” da sociedade onde o adulto projeta-se no mundo de Harry Potter e sustenta hábitos cada vez mais antagônicos, como se os conflitos da maturidade só se resolvessem voltando ao mundo de criança, e com isso, pouco se compara ou observa, o quão aquém nossa sociedade é hoje em relação aos antepassados. É mais do que normal admito.

Tudo isso ligado ao fato que a grande “rotinização” do trabalho exagerado tem feito as pessoas degenerar a mentalidade a certo ponto que, nada mais do que se produz, é realmente gratificante – por mínimo que seja - em função do cansaço físico e mental de cada um.

Por mais paradoxal que isso possa parecer, esse cigarro com gosto de saudade me fez sentir tão bem, como se servisse de propósito pra continuar. Não mais penso nesses momentos como um ponto de fraqueza isolada, e começo a acreditar que se trata de um mal necessário!

Mas afinal de contas, é sexta-feira, dia promissor, de tempestade de idéias, confusão de temas, propósitos e anseios!

E por isso vou continuar sendo jovem, insensato e inconstante enquanto posso. Divagando em versos, como nesse trecho de TABACARIA de Álvaro de Campos:

...“Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.”

# LA CUMPARSITA - CARLOS GARDEL #

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