Ele a olhava com cara de espanto... Não entendia de onde surgia toda aquela energia, era como uma fúria suave, um doce veneno...
- Não conta pra ele? - Ela perguntara enquanto se virava na cama e acendia um cigarro.
- Não... Não vou contar. Não seria justo. Me dá um pega.
- Tinha certeza que você fumava. Você tem cara de quem fuma. Você tem cara de quem fuma enquanto escreve poesia.
- Também tinha certeza que você era diferente do que quando estava com ele... mas não imaginava o quanto.
Ela riu, uma risada infantil, e se aninhou no peito dele.
- Você é gostoso, bem gostoso. Diferente dele. Ele é gostoso, mas é suave. Você é agressivo, forte. Assustador.
- Para de me comparar com ele.
- Hahahahaha. Agora, depois de tudo isso, você vem me dizer para não te comparar? Nem preciso. Vocês são o oposto. A antítese. Você é o evil twin.
- Não somos gêmeos. Você sabe disso.
- Hahahaha. Licença poética... Fica mais dramático.
- Você é inteligente. É bonita. Bonita demais. Não precisa se esconder atrás de um cara perfeito, no relacionamento perfeito, num mundo perfeito. Você é caótica. Você tem cara de desastre. Você pode fazer a diferença.
Ela se levantou como num susto, se postou de frente pra ele, virou os olhos e disse:
- FAZER A DIFERENÇA? Quem disse que eu QUERO fazer a diferença? Eu só queria passar desapercebida. Por que vocês, artistas, tem essa mania? Mania de achar que a gente veio pra esse mundo pra mudar alguma coisa. Eu não quero mudar nada. NADA. Eu só quero paz. Quero calma.
- Já se deixou levar pelo espírito rotineiro dele? Vai acordar todo o dia antes do sol, sair para trabalhar, passar 8 horas se perguntando o que está fazendo ali, voltar pra casa, pensar no jantar e ir dormir? Quem sabe assistir a novela antes, né? Se toca garota. Essa não é você. Para de fingir.
- O que você quer? Que antes da novela eu passe aqui para transar com você? Isso vai fazer minha vida mais radical, mais aventureira?
- A gente podia escrever nossa própria novela...
- Ela só ia poder passar depois das dez da noite...
E eles riram, se olharam, sem entender direito o que estavam fazendo.
- Acho que é melhor eu ir... - Ela disse, procurando o vestido no canto da cama.
- Fica mais um pouco. Eu podia fazer alguma coisa pra gente comer...
- Só se você prometer que não vai ligar a TV.
Um comentário:
No fim das contas, as maçãs deveriam ser comidas do jeito que cada pessoa queira... Mas tem gente que faria a torta perfeita, sim, mas prefere cortar a maçã na faca e ir comendo...
Medo de ter trabalho?
Porra, pensar dá trabalho, viver dá trabalho, respirar dá trabalho e enferruja...
;)
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