sexta-feira, junho 09, 2006

Um Sonhador como tantos...

Na sua Cabeça fôra sempre um escorpião milionário.

- Não tinha muitos amigos e brincava sozinho, mas era pouco divertido porque conhecia de cor todos os jogos.
- Não tinha adversários e com ele próprio disputava, mas era pouco compensador porque sempre que ganhava - perdia.
- Não tinha amores e apaixonou-se por seu reflexo, mas era pouco estimulante porque não havia rivais para enfrentar, nem conquistas diárias de afeto ou todas as pequenas coisas mesquinhas de uma relação a dois

Somente ao seu redor o mundo parecia girar.

Nas poucas vezes em que se aventurou para longe de sua caixa, na vida noturna agitada e barulhenta, se apaixonou por um copo de cristal. O segurou por bons vinte minutos, em pequenos goles sob o som do DJ, até que se perdeu numa bebida mais doce e colorida. Dela restou um enjôo desagradável e uma dor de cabeça persistente.

Tentou fazer amizade com um lobo com quem compartilhava, à noite, o cortejo das damas mais atraentes. Mas o animal fugiu assustado ao ver o sombrio companheiro, espalhando inverdades, sobresaindo-se através de seus motejos:

O Escopião voltou triste para sua caixa.

Ali sózinho o mundo voltava a girar a sua maneira.

Insistente no erro, amou um automóvel azul-marinho, uma vassoura que jamais correspondeu aos seus olhares e uma alva trepadeira que o entontecia de perfume, mas nunca o deixou se aproximar de suas pétalas.

Acomodou-se, então, ao inevitável. Seguiu para a grande caixa, junto de seus iguais e acasalou-se com uma "escorpiã" jeitosa.

De vez em quando, ainda olhava esperançoso para um carro mais possante ou entontecia com o perfume de uma flor mais ajeitada.

Mas foi feliz a seu modo.

Aprendera que vivendo a realidade era possível encarar o mundo sem traumas.

E não mais ao redor de sua cabeça o mundo girarava.

Até que conheceu a raposa costeira...
E isto é uma outra história que apenas prova que os escorpiões, como toda gente, aprendem, mas não completamente.

O amor é o mais subversivo dos sentimentos
Porque, como eles, é, aparentemente,
Apenas aparentemente,
Cego.


Baseado numa crônica que achei transcrita em um dos meus cadernos, infelizmente não tenho refêrencias sobre o autor da obra original...

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